Thursday, December 29, 2011

Fascinio...




Num dia que vi, de um canto qualquer
que dia? que canto?
perdeu-se nos arquivos de meus neurônios.

Apenas fascínio.

Não muito mais que isso

Olhar, hipnose, e num vórtice
perdido.
Não muito mais que isso.

Um não pensar, apenas olhar
e se fascinar
é um risco.
Não muito mais que isso.

Fascinio.

Sunday, August 21, 2011

Sinos


(esse é antigo)

Em mim
estão nascendo grandes círculos fechados.
E nós
tomamos o caminho ao longo
prosseguindo descontentes
mas calados.

Encarando uma realidade áspera
sempre numa rotação constante
que drena nossas vontades.

Mas esta, não será de todos eles
e estes, não serão todos os próximos livres de serem escolhidos.

Buscando.

Observar, ainda que superficialmente
o que não sabemos ser.

E tudo se estilhaça
a um simples toque.

Traçamos nossas liberdades, e com elas nossos limites.

Um adeus
provocado por sentimentos egocêntricos alimentados com frequência.
Que só revela seu real ante o céu sobre nossas cabeças.

Nessa abóbada escura
refletem-se vida e morte.

Estou aqui
continuo a procurar
por um nada.

Nada casual.

É assim.

Thursday, August 05, 2010

E o Burro Viu o Anjo...

Lembro-me do frio que cortava almas
Num solitário e negro inverno
em meus ouvidos promessas doces
na voz que encarnava algum demônio
assassino.

Nas ruas um pastor pregava
Sobre uma realidade que só existia nos porões da fé dos inocentes
Ainda sentia o aroma ácido do sangue
e o sabor fino de afiada lâmina.

Eram tempos de esperança aqueles
Sorrisos nasciam fáceis de transeuntes sonhadores.



Mas eu também sonhava.


Com o ressoar dos sinos e o convocar da assembléia
Era hora de construir um mundo de homens
Sem as ilusões de guerreiros adolescentes em suas calças negras e justas
O sagrado estava quase palpável nas camadas de vento.

Vagarosamente meu olhar procurava a alcatéia
E meus sentidos procuravam as vítimas.
“Não se arrependa ou chore” disse aquele anjo.

Enquanto envolvia meu corpo entre suas asas
“Você será minha mais doce
blasfêmia”
Eu apenas aceitava enquanto secava minhas lágrimas.

Queimando por dentro
E pelo ar qual sonâmbulo celeste
O vapor úmido de batalhas vencidas e as campinas cheias de corpos.


Mas eu também despertava.



Para o asfalto com seus pequenos jardins embranquecidos pela geada
Para o mesmo ódio a doer como uma úlcera
o lábio mordido em ansiedade pequeno fio de sangue.

Anoitecedo.
Deixarei a janela aberta
Lobos e demônios festejarão na penumbra sua canção mais tenra.

Wednesday, February 11, 2009

Escarlate


rodopiar um corpo louco
boca silenciosa
orquestra e completude
mãos que guiam
olhar ilude
sem saber, só querer tu dança
eu danço
giramundo, giramentes
giratudo
minha carne e a tua
falam esperanto
hay milonga de amor
hay encanto
hay tu cuerpo en mi mano
hay un tango.

(obrigado poeta...estrelas!)

Thursday, January 15, 2009

Rasura


E era brusca fantasia
sem querer eu não sabia
que a verdade que se mentia
foi loucura doce
e amarga dor.

E eram horas de pesado respirar.
Pude sentir.

Inebriante.

Manchas de pequeno sangue
eu te vi
e o sol se pôs.

Tempos de ter em mãos tão pouco
ansiando pela altura
esperar estava consentido
até quando não sei não.

Escondido o sentimento
e acima era só dor
tal como um vício.
Pétalas que hoje secaram
eram passeios
em nossas mãos.

Nesse vinho derramado
taças de cristal quebrado
e a derradeira sina vem correndo me buscar.

Lá no fim do túnel sou só um fantasma para o Discovery estudar.

O jamais citado foi poema
foi louvado
e se jogou fora.
Escondido num abrigo, ou no bolso da camisa.

E tal dia a descoberto minha coleção eslava...
recheada de intempéries...de textura craquelada.

Monday, December 22, 2008

Estar solitário


Estar solitário é como ser uma peça de cor diferente no quebra-cabeças da cidade, bairro ou país...
...ou mundo

Estar solitário é respirar fundo toda vez que a luz do dia bate na cara pela manhã.
E sentir um inexplicável aperto quando a noite se deita.

Estar solitário é comer na cama enquanto o controle remoto procura nervoso algo para nossos olhos.

Estar solitário é ver o mesmo filme três ou quatro vezes!
E durante o filme nunca lembrar que se está sozinho.

Estar solitário é pensar na viagem de final de ano e imaginar quem vai estar lá.
E nunca 'o que nós vamos' ver por lá.

Estar solitário é comer aquela pizza fria no outro dia, porque ela dá certinho para duas pessoas.

Estar solitário é ver casais de amigos discordando entre si e afirmar em alto e bom som que 'solteiros não têm esse tipo de problema'.
E afogar num sorriso amarelo a total falta de compartilhamento.

Estar solitário é sentar na mesa do canto no bar e observar a alegria coletiva alheia.

Estar solitário é rir sozinho de uma cena engraçada e não ter ninguém para comentar sobre.

Estar solitário é esquentar o coração no microodas.

Estar solitário pode ser uma opção.
Pode ser falta de opção.
Pode ser egoísmo.
Pode ser imposição.
Pode ser muita coisa.
Pode ser bom.
Pode ser não.

Mas no final a condição é a mesma.
Estar solitário.

Monday, June 09, 2008

Bonecos


Bonecos caminham entre humanos.
Saídos de fábrica já com todos os acessórios, roupas e objetos variados.
Mas o que mais os caracteriza são seus sorrisos, criados em formas especiais com moldes diversos, essas criaturas embalsamadas na cordialidade de um sorriso, jamais estão de outra maneira, não importando o que se passa em seus plastificados corações.
Pobres bonecos.
Eles amam?
Sim de fato eles amam, de uma forma incompreensível até mesmo para eles, mas os sentimentos explodem em seus peitos endurecidos pela resina, onde não se vê nem mesmo o respirar vital do prana que é tão caro a todos.
No início são divertidos e atraentes, como uma novidade nas mãos de qualquer criança, com o tempo tornam-se torpes, inanimados e sombrios, caem pelos cantos onde o pó começa-lhes a fazer o cortejo, nas noites, a solidão aproxima-se com olhos em fogo, e eles temem, sentem a garganta contraindo-se e choram, sem ninguém ver, pois seus imutáveis sorrisos jamais os abandonam.
A vida caminha, o tempo se esvai, estes seres empalhados na alegria arrastam-se pelas esquinas recebendo por vezes gentis cumprimentos dos transeuntes, sempre impressionados com seus belos sorrisos, que resistem às maiores adversidades, sorrisos de dor que esperam uma morte rápida, seja num automóvel cruel a passar-lhes por cima, em cães vagabundos a despedaçar uma carcaça carcomida ou males urbanos de toda espécie.
Mas as maiores possibilidades sempre giram em torno da morte lenta, espinhosa e doente, na craquelura torturante das intempéries daquilo que chamamos de crescimento, que matam nossos anjos tão docemente cultivados por sonhos.
Mas que ainda mantém nossos plastificados sorrisos.